Papo franco: Roberto fala sobre as caneleiras (recuperadas), Vélez, Sacoman, o apelido de Tigrão e, pasme, a história de comer cuspe era verdadeira!

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PontePress/ThiagoToledo

O goleiro Roberto está duplamente feliz. Além da vitória contra o Vasco no domingo e da certeza renovada de que a Ponte se manterá na série A, o camisa um recuperou as caneleiras de estimação – e desenvolvidas especificamente para ele – que sumiram após o jogo. O atleta estava tirando fotos com torcedores, logo na saída dos vestiários, quando a bolsa com o equipamento sumiu. Na tarde de hoje, ela foi entregue por uma pessoa não-identificada na portaria do estádio.  O arqueiro pontepretano fala, em entrevista, sobre o dissabor que passou e o alívio de recuperar tudo o que havia sumido, a expectativa de enfrentar o Vélez Sarsfield, revela que em Portugal era chamado de “Tigrão” e, pasme, a frase sobre ser frio a ponto de comer cuspe que disse na Colômbia tem uma história verdadeira por trás. Confira:

As caneleiras que reapareceram

São minhas companheiras de guerra, né? Há quase 10 anos eu as fiz, quando joguei em Portugal. E ontem, quando eu saí do jogo, parei para atender algumas pessoas que pediam fotos e autógrafos e na hora de sair eu levo sempre dentro da bolsa e o par de luvas. Eu levo sempre comigo não deixo na rouparia porque isso é exclusividade minha. E eu deixei cair no chão. Quando cheguei em casa fui estender a luva e a caneleira… Voltei aqui no clube, pedi para o pessoal abrir o vestiário. Quando eu vi que não tava bateu um desespero.  Para algumas pessoas pode não ser nada, mas para mim, que estou há nove anos equipando essas caneleira aqui em todos os jogos, é muito importante. Até porque é uma questão de segurança, elas são feitas em fibra de carbono, moldadas para a minha canela. Quando eu saio para dividir,  saio sem medo nenhum. Então, queira ou não queira, passou um filme na minha cabeça, já me imaginei indo para o jogo sem ela, né? E eu não sei quantos jogos usando essa caneleira.  Mas graças a Deus que hoje eu cheguei aqui e o pessoal da segurança me entregou, falou que vieram devolver e o problema tá resolvido.

A imagem gravada nas caneleiras

Cada um tem a sua fé. Eu tenho a minha fé. Peço que a nossa senhora sempre vá a minha frente e das pessoas que estão juntos comigo. É uma proteção, e proteção é sempre válida. A caneleira e de fibra de carbono e aguenta pancada, mas é sempre bom ter uma proteção dos céus, eu acredito nisso e ajuda muito.

Apoio da torcida

Quero agradecer as pessoas que se envolveram nessa causa que eu lancei no twitter, dizendo que eu tinha perdido, e que saiu no site da Ponte, no facebook, em  outras mídias. O pessoal fez a mobilização. Quero deixar bem claro que quem pegou não foram as pessoas que tiraram foto comigo. Às vezes o torcedor pode pensar que foram elas, mas não foi, já conheço aquelas pessoas há muito tempo. Ou realmente alguém pegou para guardar pra si ou alguém achou, soube que era minha e veio entregar aqui hoje. Não importa agora, só agradeço que elas estão na minha mão, agradeço muito por isso. Aliás, voltou o pacote completo, graças a Deus. A bolsa, as luvas e as caneleiras. Perder as luvas seriam, dos males, o menor. As luvas ainda tenho vários pares. O problema seriam as caneleiras, não teria tempo hábil para arranjar outras, aqui no Brasil não sei se tem alguma empresa que faça.

 Contra o Vélez

Agora estou tranquilo para quinta-feira. Vai ser um jogo muito difícil. A equipe do Vélez é uma equipe muito qualificada, mas nós temos um sonho e vamos buscar. Sabemos que teremos de enfrentar equipes muito qualificadas, mas estamos focados nos objetivos. Vamos fazer de tudo para fazer um bom resultado aqui na quinta e depois segurar a vaga no jogo de volta. São 180 minutos e vamos buscar a classificação.

O que você falou ao Sacoman sobre o gol contra 

O que eu procurei passar pro Sacoman é que quando um pai abraça o filho, é porque o filho errou bastante. E ele sabe quando o filho erra porque ele já passou por aqueles erros. Eu já errei muito. E geralmente quando um zagueiro ou outro jogador erra ainda tem o goleiro para tentar defender. Ontem o Sacoman se sentiu como eu, porque ele errou e não tinha ninguém para salvar ele. Queria até agradecer o torcedor, porque o pessoal tinha começado a vaiar o Sacoman quando ele pegava na bola e eu dei uma entrevista no final do primeiro tempo pedindo encarecidamente para que, se alguém quisesse vaiar, que vaiasse a mim, mas que vaiasse no final da partida. Porque querendo ou não, não poderíamos perder um jogador da importância do Sacoman durante a partida.  E queira ou não queira, por mais que o jogador seja experiente, isso dá uma abalada no psicológico. As pessoas entenderam e no segundo tempo procuraram apoiar, bater palma. Quando o Sacoman pegava na bola, apoiavam. Então queria deixar claro que isso foi de extrema importância.

Ninguém quer falhar

O Sacoman não queria errar. Ele jamais queria fazer um gol contra. Ninguém quer o mal do seu próprio time. Eu falei pra ele já no começo: “Sacoman me fala uma coisa: tu quis fazer o gol contra?” E ele respondeu: “Não, jamais.”

“Então pronto, velho. Acabou a história. Bola pra frente, vamos jogar. Nós temos pela frente um jogo muito difícil. Se você se abalar eu estou morto. Eu preciso de ti. Se eu perder meus zagueiros, homens de confiança, complica muito. Segue o baile. Já aconteceu comigo. Já errei muito. Eu errava e demorava para voltar pro jogo. Uma vez escutei a frase: ‘Roberto, às vezes tu tem que ser um pouco irresponsável. Quando tu erra tem que falar assim: Errei, que se exploda. Já era, não errei porque eu quis.’  Neste sentido, tem hora que o cara tem que ser um pouco irresponsável. Esquecer as coisas e seguir o baile, porque senão o cara não consegue dar a volta. Aí, depois, o Ferron foi expulso… Eu sei o que o Sacoman passou. Porque uma vez eu já errei em uma partida com um minuto de jogo. E no final não foi igual ao jogo de ontem: nós perdemos de 1 a 0 por causa de uma falha minha. Ontem, no final do jogo, ia acontecer com o Sacoman o que aconteceu comigo. As atenções seriam negativamente todas voltadas para ele. Por isso, quando fizemos o gol de empate, teve uma falta que o Regis bateu, nossa pedi muito para Deus para ele fazer o gol. Podia fazer esse gol para ir de vilão a herói. Não aconteceu, mas ganhamos o jogo. E isso já tirou um peso enorme das costas dele. Só que com certeza ele ficaria marcado. É um cara muito importante, um baita de um zagueiro. Se vocês fizerem uma estatística, vão muitas bolas na área, o cara errar uma. É igual goleiro. A gente faz 500 defesas, mas se erra uma ninguém quer saber das 500 que ele fez.  Quer saber que ele tem que acertar sempre. Tem que levar em consideração as bolas que eles tiram. Lá no jogo contra o Deportivo Pasto, o que esses caras fizeram na defesa! É lógico que foi um erro que marcou porque foi um gol contra. Mas analisando friamente, esses caras têm crédito. Tem ajudado muito e são muito competente no que fazem. Espero que não errem e ninguém mais erre. Nós estamos em um momento que não podemos errar.  Os erros marcam muito.

 União do grupo

Nos momentos difíceis a gente sempre fala quando a coisa tá ruim, agrupa que é mais fácil. Igual aquele filme do Gladiador. Quando colocam eles na arena, tem o comandante, ele fala:  rapaziada vamos nos juntar, porque juntos somos mais fortes, e é o que tá acontecendo. A mesma história do palito de dente: um você quebra fácil, vários palitos você não consegue. Nós temos um foco e um objetivo. E essa união vai tornar as coisas um pouco mais fáceis.

A famosa frase do cuspe  

 O pessoal veio me zoar: “Você tá maluco cara, engolir cuspe dos colombianos. Tu vai pro doping e vai ser pego (rs)”. Os caras são brincadeira, tem a imaginação fértil. Mas isso aconteceu de verdade. Por incrível que pareça essa história aconteceu. Nós éramos juvenis, estávamos jogando a Taça Santiago em 96, as quartas contra o Cerro Porteno, as oitavas contra o Independiente e as semis contra o Estudiantes. E na semifinal o atacante dos caras deu uma cuspida na cara de um colega meu. Uma cuspida bem verde. Ele chamou o cara, passou a mão e colocou na língua. Eu quase vomitei. O cara ficou olhando para ele assustado, com nojo. O cara foi jogar lá do outro lado. Depois ele jogou no chão e eu falei para ele, pô Evandro, tu é muito porco. Tu é muito lixo. Ele disse: esse é o espírito. Esses argentinos acham que vão ganhar da gente. Olha lá, ele não joga mais. E eu disse que ele tinha perdido o goleiro também. E isso ficou marcado. Nós tínhamos 16, 17 anos. E durante o jogo ele pedia para cuspir mais, e o cara olhava para ele assustado. E em jogos decisivos eu sempre lembro desse jogo, da frieza que temos que ter. Hoje ele não joga mais. Parou por contusões. O cara foi guerreiro.

Roberto Tigrão

Eu fiz as caneleiras em Portugal. E lá em Portugal me conhecem como Tigrão.  Então quando o cara fez ele colocou meu nome. Essa caneleira tem um número aqui. Se eu chegar lá hoje, ele faz uma outra pra mim, tem todas as informações. Essa caneleira já me livrou umas duas vezes de quebrar a canela. Em uma dividida o cara veio pra chutar a bola, eu cheguei antes e ele chutou a minha canela e voou por cima de mim. Não senti nada. Pensei que a caneleira tinha quebrado. Olhei e não tinha feito nada para a caneleira. O cara atrás de mim estava todo estourado. Ele saiu do jogo. Se eu estivesse com uma caneleira normal, o estrago tinha sido grande.  Ontem quando eu vi que ela não tava lá, eu fiquei arrasado. São quase dez anos usando ela. Tá meio baleada, mas ainda aguenta mais uns cinco anos. Todo jogo eu ia ficar pensando, “cadê a minha caneleira?” Isso aqui é a minha integridade física. E na hora de dividir a bola eu vou sem medo. Agora ela está aí. Até o Marcão me questionou: Pô galã, vai pra guerra?

Mas por que Tigrão?

 Quando eu fui pra Portugal eu estava no Criciúma. E o mascote do Cricíuma é o Tigre. E quando eu cheguei lá eles começaram a me chamar de Tigrão. E no primeiro jogo meu pelo Moreirense, as letras do meu nome caíram no intervalo. Aí eu tirei o resto das letras, e no outro jogo nós íamos jogar contra o Boa Vista. E o mascote do Boa Vista é a pantera.  O roupeiro disse que não tinha mais letras para colocar o meu nome na camisa. Só tinha as letras da palavra Tigrão. Aí eu falei, se tem que colocar um nome, coloca Tigrão então. Os caras disseram para eu não entrar com essa camisa. Porque pensaram que poderia ser uma provocação. Já que era uma equipe grande contra uma pequena. O jogo foi 0 a 0 e eu peguei muito. Quase ganhamos. No outro dia nos jornais em Portugal, a manchete era ‘No duelo entre Pantera e Tigre, o tigre foi soberano’. Todo mundo lá me conhece por Tigrão.

 A passagem da tarja de capitão a Adrianinho

Quando o William saiu, me passou a faixa. E depois eu passei pro Adrianinho, porque eu pensei, chegou em determinado momento do jogo que eu de capitão não ajudaria em nada. Estavam acontecendo coisas lá do outro lado do campo, que eu como capitão não poderia intervir. E assim o Adrianinho poderia intervir melhor. É lógico que representar um time como a Ponte Preta é uma honra. Mas eu não tenho muito essa vaidade. Achei que naquele momento o Adrianinho seria mais importante que eu. https://mail.google.com/mail/u/0/images/cleardot.gif

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