Jorginho: vamos fazer o simples, o arroz com feijão, para sair da zona de rebaixamento e aí buscar vôos mais altos; a torcida é fundamental neste momento

Campeão da Seleção Brasileira como jogador em 1994 e como auxiliar técnico na era Dunga (Copa América em 2007 e Copa das Confederações em 2009), o técnico Jorginho chegou à Ponte Preta com grandes expectativas, mas com um foco bem definido para o momento da Macaca. “Temos que trabalhar para sair o mais rápido possível desta situação incômoda, sabemos que o time tem potencial para isso, tem condição de escapar, sair da zona e aí sim buscar vôos mais altos. No Brasileiro, agora, não podemos nos dar ao luxo de perder pontos que em tese podemos ganhar, como ocorreu em alguns confrontos diretos que a Ponte teve, até porque tem equipe que começou mal, mas tem grandes plantéis, com fácil reposição, e portanto tendência de subir, como o São Paulo. Então se der pra vencer e jogar bem será  fantástico, sem dúvida, mas temos é que ter equilíbrio, jogar o antigo arroz com feijão, simplesinho e objetivo para sair da zona, depois pensamos em algo melhor”, afirma.

 

O treinador enfatiza a importância de ter a torcida pontepretana apoiando o time nas arquibancadas do Majestoso . “Todas as vezes em que vim aqui contra a Ponte – quando estava no Flamengo,  no Vasco , No São Paulo –  sempre foi muito difícil enfrentar a torcida apaixonada e vibrando o tempo todo. É fundamental que neste momento delicado a torcida esteja junto. Muitas vezes o torcedor não sabe o quanto ele pode motivar ou desmotivar a equipe. Então é muito importante a presença, a participação e o incentivo de todos os pontepretanos no estádio. Estamos todos juntos e temos que ficar juntos, até porque casa que é dividida é muito complicada.”

 

Apesar do início em um momento delicado para a equipe na competição nacional, Jorginho revela que acredita em marcar época na Macaca. “Não quero pensar na Ponte como…uma ponte…para outro time e sim como realidade na minha vida. Quem sabe eu não possa fazer história aqui? Gosto de me doar 100% onde estou. Vou dar meu melhor, tenho contrato até o fim do ano, mas desde já desejo renovar para disputar o Paulista, que seria meu primeiro como técnico”, diz.

 

Questionado sobre o fato de ter chegado com a possibilidade de orientar apenas um treino e já assumir o comando do time em um jogo importante na noite de hoje (quando muitos treinadores em situações similares não se sentaram no banco e só oficializaram-se no cargo depois de concluída a partida imediata), Jorginho não considera o fato como “um ato de coragem”. Pelo contrário, acredita que é o mais correto e normal a se fazer.

 

“Não tem porque temer uma situação assim, até porque não vamos resumir nosso trabalho a este jogo e sim ao todo. No entanto temos que olhar esse confronto de logo mais com carinho, é um jogo difícil. Apesar de termos ganho a primeira partida lá podíamos ter construído um placar melhor pra gente e o Criciúma está iniciando uma crescente no Campeonato Brasileiro. Vamos lutar por um resultado positivo hoje e se ele acontecer é mérito dos atletas, mas se for negativo podem colocar na minha conta, porque eu assumi esta responsabilidade ao me tornar técnico da Ponte”, afirma Jorginho, revelando que passou quase toda a noite analisando as possibilidades para o confronto e pela manhã – enquanto os auxiliares técnicos Ailton e Zé Sérgio trabalhavam com os atletas – ele reviu todos os últimos jogos da Ponte em vídeo.

 

Esquemas táticos

 

Para o confronto desta noite contra o Criciúma, o treinador inicialmente montou o time em um 4-2-3-1, mas avisa que não se prenderá a um único esquema. “Como treinador não fico preso a um sistema tático especifico, dentro do próprio jogo posso ter outras . O 4-2-3-1 é um esquema que possibilita força, velocidade e posse de bola”, explica o treinador, que teve seu trabalho em outras equipes marcadas por um equilíbrio entre os sistemas defensivo e ofensivo, fazendo gols e ao mesmo tempo exercendo uma boa marcação sobre o adversário.

 

“O segredo do futebol de hoje é ocupar espaços, principalmente no meio de campo, e marcar. Ocupar espaço no mínimo limita a ação do adversário. Ninguém mais consegue jogar nos dias de hoje apenas com qualidade técnica e sem correr, marcar, ocupar espaço. E os jogadores precisam ajudar na leitura do jogo em campo, ter bastante diálogo, ajudarem a organizar em campo a equipe taticamente. Cobro muito isso”, diz.

 

Integrante da Seleção Brasileira que em 1994 tornou-se campeã do mundo como exemplo de solidez defensiva e disciplina tática, Jorginho não esconde que traz consigo o aprendizado não apenas daquele selecionado como também de diversos outros treinadores com quem atuou. “Em qualquer trabalho que você realiza e no qual é bem sucedido você aprende. O Parreira e o Zagalo me marcaram, mas houve outros com quem trabalhei como Telê Santana, Beckenbauer, Lazaroni, Carlinhos, Giovanni Trapatoni (nunca vi ninguém tão fissurado com disciplina tática), Joel Santana (que era ótimo nas substituições) e mesmo o próprio Carpegiani. Como jogador eu era muito observador, buscava fazer uma leitura de jogo e não simplesmente jogar. Então tentei pegar o que identifiquei como virtudes destes treinadores e colocar um pouquinho de todas elas na minha vida.”

 

Perfil como técnico e disciplina

 

Se o jogador Jorginho era observador e disciplinado, qual é o perfil do técnico? Autoritário ou paizão? Ele mesmo responde: “Sou um pouco de tudo, até porque depende do momento e de com quem se está falando. Tem jogador em que você pode dar bronca, pressionar, brigar. Tem outros que precisam ser abraçados. Então existem momentos para se chegar junto, mas uma coisa é certa: sem disciplina não anda.  Eu e todo profissional que se preze luta muito, tem que ter uma disciplina diária para cada um chegar longe. Então há momentos de brigar, há momentos de compreender, e todos devem ser tratados como seres humanos, mas disciplina tem que ter sempre.”

 

Sobre este aspecto, Jorginho defende a decisão tomada pela Diretoria de Futebol em Salvador, quando vetou a saída de atletas após o jogo em que a Ponte foi derrotada. “Se o time ganha jogo, não vejo problema em problema de liberar. Acredito que o jogador pode fazer o que quiser fora, desde que obtenha resultado em campo, mas são poucos que conseguem fazer isso. Posso citar um com quem trabalhei, que é o Romário, ele ia para noite e rendia, mas não treinava de manhã, não bebia e não fumava, o negócio dele é outro. De maneira geral, porém, acho que há tempo para todas as coisas, mas quando o time perde não é momento para isso.”

 

Jorginho ressalta que o jogador tem que respeitar sua relação com a instituição e a própria carreira. “Ele tem que entender que é pessoa pública, tem que se comportar. Falei para eles na preleção inicial ontem que o futebol é uma vida tão fantástica, mas é tão rápido que temos que viver intensamente o esporte e fazer de tudo para marcar nossa geração. Foi o que fiz como atleta, vivendo intensamente: quando fui campeão da Copa do Mundo, chegamos mortos de cansaço da viagem, horas e horas, e ainda andamos mais seis para chegar na barra da Tijuca, São Conrado, e comemorar aquele momento único. Um momento que exigiu trabalho e disciplina: quem faz extravagâncias com certeza não vai estar bem preparado para enfrentar o jogo”, acredita.

 

Elenco atual, contratações e “estar ligado”

 

Jorginho conta como foi o primeiro contato dele com o elenco alvinegro, tanto no treino de ontem como na concentração. “Procurei entender melhor os atletas. Conheço a equipe e  é bom saber que posso contar com atletas de qualidadee que há jogadores qualificados que hoje não estão nem no banco e outros no banco que podem ser titulares. Não que a gente vá ficar mudando o tempo todo, mas é importante eles se manterem motivados e buscarem seu lugar, mostrar vontade e determinação”, diz.

 

Para o comandante, um dos segredos do futebol é o atleta estar permanentemente preparado e “ligado”. “Tem que é estar ligado o tempo todo, os gols do adversário acontecem quando o jogador se desliga. Contra o Criciúma no primeiro jogo foi assim, a Ponte estava muito meljor em campo e por isso se desligou, aí tomou gol. Na seleção de 1994, o Ronaldo (Fenômeno) estava no banco e quem entrou no jogo foi o Viola, que estava ligado, foi aplicado. Se o jogador estiver ligado, cinco minutos podem mudar a vida dele para sempre”, acredita.

 

Quanto a recuperar atletas ou contratar reforços, o treinador crê que a melhor solução é intermediária. “Não gosto de citar nomes de possíveis contratações, mas ambos são importantes. É preciso primeiro recuperar o que se perdeu, ninguém chega sem qualidade na Ponte, se foi contratado tem potencial e o atleta sabe se tem ou não. Muitos não são tão corajosos às vezes no momento de chegar para cima, tomar uma decisão, outros são mais reservados, mas todos têm qualidade”, diz.

 

E acrescenta: “Temos que extrair de cada um seu potencial e vamos fazer isso pelo conhecimento, a linguagem simples. Não adianta querer falar bonito e demonstrar que é alguém que você realmente não é. Vamos falar olhando no olho e sendo sinceros, sabemos como é a cabeça do jogador quando perde, quando está no banco ou quando nem foi relacionado. Então temos que estar atentos a todos e além disso, se tivermos como trazer alguém qualificado para melhorar o grupo, vamos trazer.”

 

Comissão técnica e conhecimento prévio

 

O comandante alvinegro fala um pouco sobre as informações que obteve sobre a Ponte antes de assumir o cargo. “Enfrentei a Ponte na segunda rodada e busquei todas as informações possíveis sobre o time. E encontrei aqui na Ponte grandes profissionais, como o (auxiliar) Zé Sergio, de quem sou amigo de muitos anos, temos amizade inclusive entre nossas famílias. Trocamos muita ideia para definir a equipe que vai entrar neste jogo”, revela.

 

Zé Sérgio é o auxiliar fixo da Macaca e Jorginho trouxe sua própria equipe. “Sem gerar nenhum custo exagerado para a Ponte, claro. O Marcelo Cabo é meu analista de desempenho, trabalhou como observador técnico na seleção, ia com o Taffarel ver equipes oponentes e tem experiência no mundo árabe. Quando eu não tenho a info ele tem, conhece todo mundo, tá ligado em todos”, diz.

 

Completam a equipe Carlos Alberto e Aílton. “O carlos grava tudo, levanta dados, ajuda com a parte de TI, as palestras, e o Ailton é meu parceiro como atleta, foi meu auxiliar técnico desde o América, trabalhou comigo no período do Japão, é meu braço direito.”

 

Passado e futuro

 

Questionado pela imprensa de Campinas em relação à passagem pelo Flamengo, na qual em 14 jogos obteve 59,5% de aproveitamento, Jorginho revela-se frustrado pela interrupção do projeto de dois anos que a diretoria do time carioca havia oferecido a ele, mas frisa que isso é passado.

 

“Antes de efetivamente assumir como técnico lá tive dois convites anteriores, mas estava cumprindo outros compromissos. Em 2012 estava no Kashima quando veio o primeiro deles, uma proposta até superior à deste ano, mas não aceitei porque tinha dado minha palavra lá no Japão e era um compromisso importanteo (no Kasima em 2012 poderia ter vindo, proposta superior a este ano – não aceitei que eu havia assumido”, diz.

 

O primeiro convite, relembra, foi em 2009. “Quando o Andrade assumiu interinamente eu fui convidado, mas estava na Seleção Brasileira e não tinha condições de ocupar dois cargos, como auxiliar técnico do Brasil e treinador do Flamengo. Eles até aceitavam o acúmulo, mas eu achava impossível de cumprir bem as duas funções. Aí agora, em 2013, cheguei pensando em um grande projeto de dois anos e isso foi frustrado com duas derrotas e dois empates que geraram minha demissão. Só que isso hoje está para trás, agora é pensar para frente, meu foco é só Ponte Preta.”

 

Mesmo com contrato inicial até dezembro, Jorginho reforça que quer ir muito mais longe ao lado da Macaca. “Assino até o final do ano, o término do brasileiro, e não tenho a preocupação de multa por ser um período curto e porque o mais importante agora é dar certo. Depois conversamos sobre Paulista de 2014 e outras possibilidade, mas agora temos é que ter os pés muito no chão , estamos na zona de rebaixamento do Brasileiro e precisamos sair o mais rápido possível”, ressalta.

 

Brasileiro x Total Sul-Americana

 

O técnico Jorginho não tem dúvidas sobre qual é a prioridade da Ponte nas competições que disputa. “A prioridade naturalmente é nos mantermos na série A do Brasileiro, mas não podemos esquecer que estamos em uma competição que é histórica pra todos nós, que é a Sul Americana”, pontua.

 

A solução, então, é buscar o equilíbrio ao se priorizar uma, sem se desprezar a outra. “Temos que atuar nas duas competições com inteligência. Não dispomos de um plantel grande que nos possibilite colocar equipes diferentes na Sul Americana e no Brasileiro. Vamos ter cuidado com dois ou três jogadores que precisamos no nacional e buscar um equilíbrio”, diz o treinador.

 

Por fim, Jorginho fala sobre a meta que William estabeleceu quando chegou na Ponte de fazer 30 gols em 2013 – faltam apenas cinco – e se ele também, neste momento, pode ou não estabelecer uma meta para a Macaca. “Gosto muito do William e sofri muito com ele quando eu estava no Figueira: a gente estava indo super bem e quando enfrentava o Avaí ele vinha e acabava com a gente. Fico feliz com a meta dele e com certeza ele vai superá-la, mas minha meta agora é muito mais modesta: quero sair urgente da zona de rebaixamento com urgência, só penso nisso. Vou ter outras metas mais tarde, mas agora preciso me fixar nesta, que é a realidade.”

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