Guto Ferreira diz que próximo jogo é o mais difícil e ressalta: o nós faz o eu aparecer. O eu sozinho não faz nada

 

O técnico Guto Ferreira concedeu ontem uma entrevista de mais de quase duas horas na redação do Correio Popular (o jornal publica a matéria na edição de hoje). O site oficial participou da conversa e traz ao leitor a versão mais ampla da entrevista,  com as principais respostas de Guto sobre os mais diversos temas. Entre outras coisas, o treinador destacou que o jogo deste domingo contra o São Bernardo, que ocupa a parte debaixo da tabela, tem que ser encarado como o mais difícil de todos, e ressaltou ainda a importância da união do grupo: “Todos acreditam na nossa ideia de que o nós faz o eu aparecer, mas o eu sozinho não faz nada.”
 
Segurança no cargo de treinador
 
Quem atua no futebol sabe que o que manda é o resultado, mas aqui na Ponte , mesmo nos momentos mais desfavoráveis, eu nunca sofri uma pressão neste sentido que atrapalhasse o meu trabalho. O momento crucial que me mostrou a confiança que a instituição tinha em mim foi logo depois do jogo contra o Sport no ano passado (a Macaca havia perdido por 3 a 1 e acumulava três derrotas e uma vitória). Íamos pegar o Santos na sequência e fui chamado para uma reunião. Na minha cabeça era claro, iam me dizer que se não ganhasse do Santos estava fora. Mas o que aconteceu me mostrou porque as pessoas que comandam a Ponte Preta são pessoas de sucesso. Cheguei lá e estavam o presidente Márcio Della Volpe, o presidente (afastado) Sérgio
 
Carnielli, o diretor de futebol Hamilton, o executivo Ocimar Bolicenho e o coordenador Marcão. Me disseram que sabiam que o jogo contra o Santos era difícil, sabiam que seria complicado, então claro que queríamos uma vitória, mas podíamos pensar em um empate. Mais ainda, se eu perdesse eles me dariam mais tempo para trabalhar, pois sabiam que isso era necessário e confiavam em mim, no elenco e no que estava sendo realizado. Aquilo me desarmou completamente e ao mesmo tempo me encheu de moral. Se naquele momento ainda estava faltando alguma coisa para eu querer ainda mais ficar na Ponte, agora é que não faltava mais.  Pensei: não posso decepcionar quem confia tanto assim no meu trabalho. Fomos ainda com mais afinco atacar os problemas, mesmo com pouco tempo pra treinar, e com muito trabalho e o homem lá em cima iluminando, começamos a conquistar. Veja, pessoalmente eu e minha comissão trabalhamos o tempo todo em outros times, com toda a dedicação, para ter uma oportunidade boa dessas que estávamos tendo aqui na Ponte, então tínhamos na nossa cabeça que não podia ser só para cinco jogos, tinha que ter coisa boa reservada para a Ponte e para a gente. Dito e feito.
 
O bom início de temporada no Paulista
 
Engrenamos na reta final do brasileiro e começamos bem o Paulista. Na pré-temporada tínhamos uma boa expectativa pelas características dos jogadores que formavam o grupo e  a personalidade deles. Isso era sinalizador e não a essência de tudo, até porque quando se administra pessoas existem fatores e momentos. Mas esses jogadores agora estão vivenciando momentos diferentes, eles vivenciaram ocasiões mais difíceis e agora estão tendo um crescimento junto. Se continuarmos assim precisaremos também ter muita consciência e manter a cabeça no lugar, com muito suporte no momento top, onde vai ter muito tapinha nas costas, auê, neguinho ligando e fazendo ofertas mirabolantes para tentar levar o atleta. Então segurar o pé no chão é muito importante. Acredito muito nessa mescla que temos no elenco, com atletas experientes, um grupo coerente, sem desvios. Vamos rezar e trabalhar para continuar assim.
 
União do grupo
 
É um grupo unido e sem desvios, você vê isso dentro e fora do campo. Um desvio nunca se resume ao jogo. Quando o cara que está mudando a maneira de pensar, ele dá indícios no dia a dia dele. Eu sou adepto a prevenir em vez de remediar, mas se acontecesse uma situação destas e chegasse a um estágio onde não existe solução, se tiver que cortar uma cabeça, mesmo que seja um jogador muito bom, é melhor corta a cabeça em prol do grupo. Até porque hoje todos os atletas, assim como todos nós, acreditam na ideia e sabem que o nós dá mais resultado do que o eu. Mesmo que um jopgador se destaque neste ou naquele jogo, ele só se destaca porque o time trabalha bem. O nós faz o eu aparecer, mas o eu sozinho não faz nada.
 
Comando x liderança
 
Na comissão o comando é meu, mas não lidero sozinho. Se eu não tiver bons profissionais na minha comissão, com características de comando, não funciona. Minha comissão pode até ser considerada pequena para um time de série A, de um tamanho bom para um time no Paulista, mas na minha opinião ela é do tamanho que a Ponte necessita. No meu grupo ninguém fica parado, quando eu não estou em um treino todo mundo comanda como se fosse o treinador, porque eu delego e dou autoridade. Com isso, evitamos desgaste e se faz o crescimento do grupo. E gostamos muito de trabalhar, não ficamos só no discurso, então o resultado que conseguimos como comissão é uma somatória disso tudo.
 
Estabilidade graças ao modelo de jogo
 
Hoje a Ponte Preta tem um modelo de jogo estabelecido. Você busca colocar os atletas da característica nos setores, muda um pouco aqui e outro ali em termos individuais, mas a essência é a mesma. Todo o grupo sabe da que maneira tem que proceder quando está em campo, como defender, como atacar. O diferencial – em qualidade, individualidade e criatividade  – é de cada um, mas a essência é a mesma. É a essência que garante a solidez e a regularidade do trabalho.
 
Cametá, já tem atletas de nível alto, que já dão rendimento, então começar com ele pode nãos er uma boa, o ideal é soltá-lo durante o jogo.
Semana que vem virão amistoisos.
 
Não há favoritismo contra o São Bernardo
 
Eu digo que é o jogo mais difícil. Se estamos em lados opostos da tabela e em teoria muita gente acha que é um jogo fácil, então eu pergunto: até onde a teoria no futebol é efetiva? Existem situações no futebol em que a teoria não vale. Até porque lidamos com seres humanos, que não são 100% previsíveis.
 
Você não tem controle 100% do emocional, do físico, não é máquina. E até se fosse máquina não poderíamos prever: o estudo de uma máquina dá uma previsibilidade do que se esperar dela, que não é 100% garantida, e no caso de seres humanos a previsibilidade é menor ainda. Então temos que encarar como um jogo muito difícil, entrar com toda dedicação e não perder o foco nem um segundo.
 
Falta de foco contra Ituano
 
Para mim isso não existiu. Eu faço uma leitura clara do jogo do Ituano: o que nos prejudicou foi o desgaste. Eu tinha jogadores no limite, como o Artur e o Bruno, pedindo para sair. Tomamos dois gols pela direita, a falta do segundo gol claramente não existiu e, para mim, a do primeiro também não. E a partir dali faltou malícia. Mas a gente amadurece com essas situações, assimila as experiências. Um grupo é a mesma coisa, em especial quando carece de um resultado coletivo. Porque no futebol o resultado coletivo é importante, você tem que viver momentos juntos e ultrapassar obstáculos para amadurecer enquanto grupo e, lá na frente, se tornar um grupo vencedor. Por exemplo, uma das coisas que eu corrigi…não critiquei, porque criticar é ser maldoso, é tirar o nível de confiança do jogador, a gente tem que corrigir… conversamos com o Alemão explicando que não era o momento de segurar a bola no centro do campo, naquele jogo contra o Ituano. Ele entendeu, aprendeu e contra o Santos ele foi segurar na beirada do campo quando precisou. Contra o Santos ninguém teve vergonha de dar chutão, também, quando precisava.
 
Orgulho de todos os atletas
 
Tenho orgulho do time e esse orgulho não vem só das vitórias, vem da doação, vem de quando as pessoas se superam. O que nos orgulha é o poder de superação, o “eu podia render dez, mas hoje consegui render onze”. Isso que me orgulha neste grupo e não só no momento do jogo, mas nos treinamentos, onde eles trabalham no limite deles, mergulham de cabeça no que você determina. Por exemplo, quer uma situação para ficar mais feliz com esse pessoal do que no jogo contra o Santos, e falo sobre todo o grupo: os que não foram selecionados foram treinar aqui e você acha que estavam desanimados por não estarem lá? Pelo contrário, os nossos preparadores físicos que comandaram o treino chegaram pra mim depois e falaram que os caras treinaram pra caramba, não deixaram cair o nível de concentração, sangue no olho, faca na bota… Eles ralando assim, quando a gente precisar vão estar prontos e mais ainda: nos treinamentos vão exigir muito mais dos que tão jogando e quem joga só pode crescer se for exigido.
 
Comparando experiência no Mogi e na Ponte
 
A camisa da Ponte é mais forte, com todo respeito ao Mogi, e a tradição da Ponte em chegada é mais forte. Em termos de grupo, o fato de a Ponte estar jogando uma série A dá a ela uma tarimba de grupo, uma experiência de grupo maior do que a do Mogi, que foi um grupo formado naquele momento. Se permanecesse como grupo para este ano, a tendência do Mogi  era atingir objetivos mais altos, tanto é que a essência do grupo voltou e está dando sustentação a campanha do Mogi neste ano (seis atletas permaneceram de um ano pro outro), está ajudando os outros atletas na vivência, adaptação e maneira de se colocar dentro de campo. Já na Ponte teve um bom Paulista no ano passado, manteve o grupo para o Brasileiro – no qual cumpriu seus objetivos – e chegamos neste ano com mais moral, somando ao grupo alguns jogadores com experiência muito boa. A experiência e a qualidade do grupo aumentou, e a permanência do trabalho, dedicação e modelo de jogo dá a
 
Ponte um corpo para trabalhar de igual para igual para os outros. Se vamos conseguir chegar são outros 500, mas isso tudo nos deu a força que estamos mostrando em campo. Agora vamos ver o futuro e tomar cuidado inclusive com o assédio. Mas o fato de aqui termos competição de peso no segundo semestre também dá mais estabilidade ao grupo, a cabeça foca mais. Aqui na
 
Ponte tem o filé mignon, aliás, dois. Então o cara aqui já tem um calendário bom garantido, não fica pensando em sair. No Mogi, fiquei muito satisfeito com campanha, fomos campeões do Interior e subimos no Brasileiro. Agora, neste ano, aqui na Ponte, eu chegando entre os quatro vou dizer que foi uma boa campanha, mas nosso  sonho é outro e nós estamos trabalhando e brigando para concretizá-lo. O sonho do pontepretano e o meu não é ficar pensando em chegar na Sul Americana nem na Libertadores, ainda que queiramos isso. O sonho é gritar “é campeão”. Vamos trabalhar para isso.
 
Cicinho e Cléber na seleção brasileira
 
Já houve muito diz que me diz sobre isso, porque são dois jogadores jovens, que estão se destacando, chamam a atenção. O Cicinho é versátil, na lateral contra o Santos, por exemplo, ele tomou conta e na frente é um motorzinho, um jogador ótimo que dá opções na frente e atrás de um time. Mas não sei, não, porque na Seleção os caras que estão sendo chamados pra lateral são todos lá de fora e geralmente são jogadores que tem uma bola parada muito forte.
 
Agora o Cléber… sei não, hein? Na minha concepção ele está entre os melhores zagueiros da atualidade no futebol brasileiro, não deve nada a ninguém. E mesmo estando surgindo agora, para mim já é um atleta que surge maduro e tem só 22 anos. Não sei se vai ser agora, mas se continuar assim acho que em algum momento ele vai chegar à seleção. 

 

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