Primeira Democracia Racial do esporte brasileiro, Ponte Preta entrará em campo com camisa em homenagem ao Dia da Consciência Negra

Primeira Democracia Racial do esporte no Brasil,  tendo negros tanto dentro de campo quanto na diretoria desde a fundação em 1900, a Ponte Preta entra em campo neste 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, com uma camisa especial.  Além de trazer na frente um desenho ressaltando a igualdade racial e o fato de ter sido o primeiro time a não fazer distintões por etnia, a camisa da Macaca trará no verso as frases “#RacismoNão” e  “20 de Novembro: Dia da Consciência Negra.”

“A Ponte Preta é Macaca! O racismo e o preconceito contra os torcedores do clube na década de trinta do século passado foram acolhidos pela torcida como um troféu da resistência, subvertidos em símbolo da luta pela pluralidade. Uma luta que deve ser renovada a cada dia por todos, seja nos campos de futebol ou fora deles.  Como aqueles meninos que ousaram fundar  a primeira democracia racial no esporte, nós ousamos sonhar que um mundo sem racismo também é  possível”, diz Sebastião Arcanjo, o Tiãozinho, primeiro presidente negro da Ponte Preta e único afrodescendente a presidir um dos 40 clubes que integram a série A e B neste ano de 2019.

Por uma coincidência, é de Tiãozinho a lei municipal que determinou que em Campinas o dia 20 de Novembro é feriado para que seja celebrado o Dia da Consciência Negra. Na época, o atual presidente alvinegro – que na Ponte já havia sido diretor de futebol, diretor social, vice presidente  e chegou a exercer o cargo temporariamente, em ausência do então mandatário-mor –  era vereador de Campinas (Arcanjo também já foi deputado estadual e secretário municipal da cidade).

“A vida nos reserva essas surpresas, estou sendo brindado pela história. O clube foi o primeiro a promover aquilo que se convencionou a chamar de democracia racial e foram necessários 119 anos para que isso acontecesse. Não que não houve pessoas com condições de assumir esse papel, mas acredito que a condição histórica não permitia. Hoje há uma pressão legítima da sociedade para que aqueles que dentro de campo construíram o futebol brasileiro com craques, cujo símbolo mais forte é o Pelé, também estejam representados nas direções dos clubes”, diz.

Ele finaliza: “A Ponte Preta sozinha não vai mudar a história do Brasil em relação ao racismo. Mas, ao colocar nessa posição de presidente, bem como presidente do conselho também, a gente sinaliza para o Brasil e para o mundo que um mundo sem racismo é possível, dando oportunidade para as pessoas para que elas possam cumprir as tarefas da maneira mais adequada.”

Primeira Democracia Racial

Além de ser primeiro time de futebol fundado no Brasil em atividade ininterrupta, a Ponte também é a primeira Democracia Racial no futebol brasileiro. Tanto dentro dos campos quanto fora deles, a Macaca foi pioneira em ter cidadãos afrodescendentes em seus quadros, sem nenhum tipo de preconceito, desde a fundação do time em 11 de agosto de 1900.

Entre os fundadores da Ponte existiam negros e mulatos, como Benedito Aranha, por exemplo, que fez parte da primeira diretoria alvinegra. Já Miguel "Migué" do Carmo tornou-se jogador titular do primeiro elenco pontepretano, ainda no ano da fundação.

Há quem pense que os primeiros times nacionais a aceitar negros e afro-descendentes foram os cariocas, como o Bangu, que em 1905 escalou Francisco Carregal. No entanto, quando isso ocorreu, já fazia cinco anos que Migué do Carmo tinha entrado em campo com a camisa alvinegra pela primeira vez.

Outro mito amplamente divulgado é de que o Vasco da Gama teria sido a primeira equipe a aceitar negros em seu elenco. Na verdade, o Vasco foi fundado como clube de regatas em 1898, mas só em 1915 criou seu departamento de futebol. E, mesmo como Clube de Regatas, só em 1904 elegeu um presidente afro-descendente. Segundo historiadores, só em 1923 aquele time carioca jogou pela primeira vez com afrodescendentes e no ano seguinte defendeu junto à Federação Carioca o direito de ter jogadores negros. A AAPP, como se vê, já praticava a democracia racial antes da equipe vascaína também.

A Ponte Preta inclusive já requisitou junto à Fifa o reconhecimento internacional por ter sido o primeiro time de futebol do mundo a aplicar o conceito de democracia racial. Mais ainda, a Ponte abraçou esta democracia em suas mais profundas raízes, a ponto de ter transformado preconceito em honra. A torcida do clube sempre foi animada e acompanhava o time em todos os jogos do interior do Estado de São Paulo. Por ter na torcida uma base popular e operária, e por ter muitos negros tanto em campo quanto fora dele torcendo pelo sucesso do time, muitas vezes o time era recebido nos estádios adversários de maneira hostil.

Em uma época em que o conceito de racismo mal era conhecido, os rivais falavam que a torcida era formada por “macacos”, que o time era uma “macacada”. Em vez de brigar, a torcida transformou hostilidade em bom-humor e assumiu o apelido: a Ponte tem orgulho desde sempre de ser a Macaca, todos os seus torcedores amam a Macaquinha e fazem questão de ser os macacos do alambrado.

Seja no campo, na torcida ou em sua diretoria, a Ponte Preta segue um conceito que espera ver amplamente popularizado no mundo: aqui há uma única raça, a raça humana. Além dessa, só aquela que nossos jogadores mostram em campo.

 

 

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